Antes de começar uma investigação, é preciso traçar um objetivo para ela. E eu não tinha essa meta ainda muito clara. A polícia atestou o suicídio do rapaz, mas eu precisava confirmar isso. Porque sempre há a possibilidade deles terem errado. O primeiro passo, então, era ir ao local do acontecido. Marta me deu as chaves do apartamento do filho para que eu tivesse total liberdade de ação. E ela estava tão certa de que eu acharia alguma coisa suspeita, que pouco alterou o imóvel após a morte. Só limpou o sangue do banheiro. O resto continuava do mesmo jeito desde o fatídico dia. Também tive acesso às contas de luz e telefone, que ela mesma pagava.Tentei conseguir informações mais pessoais sobre o garoto, mas acho que uma mãe que mora longe seria a pessoa menos indicada para fornecê-las. Mesmo assim, perguntei:
- Ele tinha namorada? Não.
- Usava drogas? Claro que não!
- Já tinha entrado em depressão? Não.
- Tomava remédios controlados? Não.
- Tinha inimigos? Provavelmente não.
Segundo ela, Paulo era um menino doce e simpático, muito estudioso e querido por todos. Mas eu teria que confirmar tudo isso. Peguei meu carro e fui até seu apartamento, na Asa Sul.
Acho que não deve ser uma notícia muito agradável de se receber. Saber que o próprio filho cortou o pau com uma faca de cozinha. Eu até entendo a incredulidade da minha cliente. A polícia atestou o suicídio baseada em evidências claras, mas a mãe duvidava disso e contratou um detetive particular para investigar o caso. Foi aí que eu entrei na história. Confesso que não era um serviço muito usual. Afinal de contas, não havia suspeitos, nem indícios que levassem a crer que o garoto não se matara realmente. Era apenas o desespero da mãe em tentar conviver com aquele fato pelo resto da vida. Aceitei o caso e marquei um novo encontro com Marta dali a cinco dias, para dar o meu parecer sobre a investigação.


